2019: o ano para fazer o caminho de volta

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Desde quando nascemos, fomos aguardados. Mal se podia esperar pra ver aquele rostinho indefeso, as expressões, o comportamento que cada pessoa no mundo imprime. Mesmo sem querer, somos classificados. Pela aparência, pela origem da nossa família, pelos aspectos socioambientais que nos rodeiam. Em parte, somos filhos do meio. Herdaremos por um bom tempo de nossas vidas alguns hábitos que nos foram aculturados. Nunca pus um chimarrão na boca. Mas, se eu tivesse nascido no Sul, talvez este fosse um padrão alimentar familiar. O fato é que o tempo inteiro, à nossa volta, são geradas expectativas. Nós também nutrimos expectativas nos outros, o que não é nada sadio. Espera-se muito e age-se pouco em primeira pessoa.

A criança começa a engatinhar e todos já anseiam que ela ande. Começou a balbuciar e haverá mais estímulo para que fale. Saiu das fraldas, do desmame, está na hora de pensar na escolinha. Uma vida inteira construída para satisfazer à sociedade, à religião, à família, no tempo e modo definido por eles. É como se o seu ciclo tivesse cartas marcadas. Namorou, casou e procriou. Formou, se empregou e se aposentou. Que triste programação psicológica. Tão previsível e cheia de convenções.

É preciso que acordemos para uma nova fase evolutiva, mais madura, humana e respeitosa com a individualidade de cada pessoa. Entramos numa era onde cada ser humano precisa se conhecer, se afirmar, “fazer brilhar a vossa luz no mundo”, disse Jesus. É um momento de empoderamento: feminino, masculino, da comunidade LGBT, de todas as raças e etnias. O que estamos fazendo aqui? Quem sou eu? O que me faz realmente feliz?

É o que muitos têm se questionado e vêm fazendo o caminho de volta. De volta? É. Fomos ensinados que o único caminho possível é o do sucesso, que intrinsecamente nos foi afirmado que é ter dinheiro, família pra estampar em porta-retratos, ter uma carreira bem-sucedida, quem sabe, ser famoso, ostentar títulos disso e daquilo. Ser excepcional estaria mais ligado a fatores externos do que internos? “Seja foda!”, li um dia desses nestes textos ditos motivacionais.

Foda pra quem e pra quê, irmão? Eu ando fazendo o caminho de volta. Eu quero mais é caminhar longas horas à beira-mar, sentir o sol aquecendo minha pele e presentear-me com olhares e sorrisos sinceros. Não quero aplausos e nem reconhecimento. Quero me reconhecer!

Eu já tive mil metas pra bater na vida e corria loucamente atrás de cada uma delas. Adoeci. Nenhuma delas me fazia bem, nada disso me fazia ser eu mesma. Mas o mundo dizia: “supere as expectativas!”. Nesta colocação, está implícito o seguinte: faça horas-extras, trabalhe sem parar, estude sem parar, coma (mal) sem parar. Não pare! Se você parar, será convidado a pensar sobre você e isto é proibido. Nunca pare, nem relaxe, trabalhar é o que lhe deixa imensamente feliz. Acumule: bens, diplomas, honrarias, sonos, vontades. O que não é prioridade, bota pra debaixo do tapete. São verdades sórdidas dadas como comprimidos goela abaixo. Seja assim e ponto final.

Trabalhar e ser produtivo é realmente prazeroso, quando se faz o que se ama. Com equilíbrio, com respeito a si mesmo e às pessoas, trabalhar realmente é belo, é poesia. Sem isso, a vida perde o sentido. O “Seja foda!” é o mesmo que “foda-se!”, desculpe o linguajar os mais puritanos dos leitores. Quando você vê, sua vida estará arruinada, sua saúde, debilitada, e você fez pouca coisa do que sonhou fazer na vida. Aquele mochilão lugares afora, o romance que não viveu por falta de tempo, da distância, aquela ligação que você deixou pra depois e no outro dia, já era tarde. A resposta que não deu. O abraço nunca devolvido. As lágrimas que não foram derramadas por orgulho. Você não foi você. Isso sim é fodástico. Você viveu pra superar as expectativas dos pais, do marido, da esposa, dos chefes, dos professores e dos colegas, enfim, dos outros.

Para você pertencer a uma tribo, precisa adotar determinados padrões. A dança da chuva, as vestimentas, as ostentações, o vocabulário, as viagens. Você precisa pertencer a algum lugar ou a alguém para ser devidamente fichado. Ser você mesmo não se basta? Este tipo de dependência, de referência, é realmente necessária? Sim, tem gente que prefere repetir o que lhe foi ensinado do que se descobrir. Se conhecer dá um trabalho danado! Olhar pra si, gostar-se e reprovar-se, faz parte. É labuta pra uma vida inteira. Mas não tente mais superar as expectativas de alguém. Supere-se! Retorne para o seu lar, para o seu coração calejado. Dê meia volta e mergulhe fundo “na dor e na delícia de ser o que é”, já diria Caetano.

Por Shirley Vidal

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