Alentejo: o fado à brasileira

O grupo é o responsável pela difusão da música portuguesa em Aracaju

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Foto: Alexandre Alcântara

O fado está para Portugal, assim como a MPB está para o Brasil. A tradicional música portuguesa nasceu marginal e tem em sua semântica o significado de “destino”. Nos idos de 1800, a música estava associada às camadas mais marginalizadas da sociedade lisboeta.

As vozes femininas marcantes como a de Amália Rodrigues tornaram o estilo musical conhecido. Ainda presente pelas ruelas do boêmio Bairro de Alfama, em Lisboa, a música portuguesa cruzou o Atlântico e chegou até nós, nas ruas de Ará.

O grupo Alentejo é o responsável pela difusão do fado à brasileira, em Aracaju. Formado por Monara Rodrigues – voz, Lucas Campelo – sanfona -, e Alberto Silvereia, violão; desde 2012 o trio encanta a todos onde se apresenta.

Entre sorrisos, os membros do grupo relatam que não tinham nenhuma ligação com a cultura portuguesa até formarem o Alentejo. Monara se encantou com a música portuguesa ainda na infância ouvindo Dulce Pontes interpretar “Canção do Mar” na abertura de uma telenovela brasileira. Desde então, conheceu não só os fados, mas outras vertentes da música lusitana como o Madredeus.

O Alentejo surgiu de forma espontânea. Em 2012, os proprietários de um restaurante português de Aracaju, propuseram a Monara montar um repertório para promover uma “noite fadista”. O espetáculo rendeu uma longa temporada com apresentações todas as sextas, do final de 2012 a meados de 2013.

Para este trabalho, Monara conta que convidou os músicos e amigos pessoais, Alberto e Lucas. “Eles se conheceram através deste convite em comum e apostaram na ideia da amiga ‘portuguesa sem certeza’”, brinca a cantora. O trabalho deu certo e mesmo com o fechamento da casa, o público conquistado fazia questão de matar a saudade contratando o grupo para eventos particulares.

Questionados sobre a recepção do público, Monara explica que o acesso à cultura está mais fácil. “Hoje em dia, a gente tem acesso muito fácil a toda e qualquer cultura através da internet, o que aguça muito mais a curiosidade do público, além de termos passado por um bom período onde muitos brasileiros conseguiram conhecer de perto outras culturas, tenha sido através de bolsas de estudos ou de uma pequena ascensão social mesmo”.

Monana relembra que, inicialmente o grupo se deparou com um público de mais idade. “Tivemos vários intérpretes brasileiros que cantavam fados e boleros em seus repertórios, como cantores portugueses que fizeram carreira no Brasil. Mas o público mais jovem também foi atraído, tanto pela curiosidade como por conhecer o Madredeus, que apesar de não executar fados, tem uma musicalidade bastante peculiar, e tem um grande público no nosso país”, enumera.

Monara destaca ainda que na seleção do repertório há a preocupação em mostrar que a música portuguesa não se limita ao fado, assim como a brasileira não se limita ao samba. “A própria formação do grupo já mostra um certo desprendimento dessa roupagem, pois apesar de preservar o sotaque português no canto, não há uma guitarra portuguesa ou sequer um bandolim na parte instrumental. Dessa forma, conseguimos compor um show mais dinâmico onde damos um sotaque fadista a composições brasileiras, como “Assim Preto”, “Negue”, “Argonautas”, entre outras e fazemos releituras de fados clássicos e outras canções lusitanas”, argumenta.

A inspiração, segundo Monara, vem de todas as gerações de cantores portugueses, e inclusive, dos não fadistas. “Talvez seja isso que nos garanta a diversificação etária e fidelização do público”, analisa.

Conheça um pouco mais

Monara foi estimulada pelo pai, sanfoneiro, a cantar desde pequena. Começou fazendo algumas apresentações na igreja que frequentava com a família, depois em eventos da escola e por volta de 2006 começou a cantar na noite sergipana, predominando em eu repertório, a MPB, a Bossa Nova e o samba.

Lucas, filho de um outro sanfoneiro, é mestre em música pela Universidade Federal da Bahia. Iniciou os estudos ainda garoto no violão, depois no piano, até se encontrar e se encantar pela sanfona. Nela, aprofundou seu conhecimento e hoje tanto toca na noite quanto dá aulas de música. Lucas tem trabalhos de destaque na noite sergipana como “Crav&Roza”, “Duobem”, “Alentejo”, além do seu trabalho de pesquisa em homenagem a Dominguinhos.

Alberto, um exímio violonista, compositor e letrista, iniciou na noite sergipana com um trabalho autoral chamado “Música de Câmera”. Mas já se destacando como instrumentista, devido a sua identidade bem definida e belas composições, Alberto lançou seu primeiro CD autoral intitulado “Baleadeira” em 2015, quando já havia iniciado sua graduação em Música pela UFS. Desde então vem fazendo seus shows na noite também com o “DuoBem” e “Alentejo” e dando aulas de música.

Por José Rivaldo Soares, da Equipe VIP

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