Coelhinho da Páscoa, que trazes pra mim? Um doce lucro para a indústria do chocolate

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Foto: Creative Commons

Historicamente, a Páscoa é uma festa judaica, dos pães sem fermento, que antecede até mesmo a vinda de Jesus Cristo. Para os cristãos, simboliza a ressurreição do Filho Primogênito de Deus. Mas, no capítulo econômico da vida, um coelho associado a chocolates passou a ser o protagonista da antiquíssima festividade.

Ao acompanhar de perto as influências e o comportamento do consumidor no período pascoal, percebe-se como o cliente age no ponto de venda com apelo emocional. Ali, ele calculará em quantas parcelas ele poderá pagar o seu ovo de Páscoa (ou em sua maioria, mais de um ovo de Páscoa).

Se a compra for acompanhada pelas crianças, o apelo será ainda maior. Brinquedos com personagens que as crianças amam estarão lá, dentro dos ovos. Se for para presentear alguém especial, os ‘gourmetizados’, ou os que trabalham bem com o marketing sensorial, como o apelo visual, olfativo e degustativo, terão chances implacáveis de convencimento.

Ao fazermos uma retrospectiva breve, percebemos como o imaginário desta data circunda o universo lúdico desde a infância. Crescemos ouvindo as cantigas de roda na escola, participando dos jogos de caça aos ovos, colorindo desenhos com a associação da Páscoa ao coelho, um mamífero que jamais poderia pôr ovos (risos).

Então há uma hipnose coletiva – tal qual a propaganda icônica do ‘Compre batom, seu filho merece batom’ -, onde a emoção raciocinada merece cada dia mais espaço e claro, a partir de um comportamento mais consciente do consumidor, a indústria passe a ser mais coerente ao precificar tais produtos.

Preço maior em ovo menor

Desde o ano passado, a estratégia das grandes companhias do setor é diminuir o tamanho e aumentar o preço. De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA), ovos com 250 gramas, em média, são a aposta do setor para garantir as vendas. Estes ovinhos, no sentido literal, podem sofrer um reajuste de até 10%.

A Arcor é uma das indústrias que oferta ovos em embalagens menores. “Não oferecemos ovos muito grandes, porque 90% das nossas vendas são da linha infantil, na qual o brinquedo que vem com o ovo é o principal apelo junto ao consumidor”, contou o gerente Nacional de Marketing da empresa, Nicolas Seijas.

O grupo CRM, detendor das marcas Kopenhagen e Brasil Cacau, também precisou reajustar preços. Em 2016, a Kopenhagen deixou seus produtos 7,5% mais caros e os chocolates da Brasil Cacau, tiveram alta de 8,5%. As duas linhas venderam 700 toneladas em 2015.

Mesmo diante do cenário socioeconômico de restrições em que vivemos, este é o principal momento para a indústria do chocolate. Mas por que? Porque a margem de lucro é infinitamente maior em comparação ao mesmo produto, vendido em outro formato e em outra data.

Compare, por exemplo, 300 g do mesmo chocolate em barra ou em formato do ovo. Sei que há de se calcular a logística ao se transportar ovos ou barras até o varejo. Mas convenhamos, o percentual que difere um ovo de uma barra, chega a ser de 200% a 300% a mais para o mesmo tipo de chocolate.

Os números e estratégias da indústria

As indústrias de chocolate continuam lucrando e o volume de empreendedores informais também se amplia a cada ano. Franquias como a Cacau Show deu um salto em expansão.

Fundada em 1988, a Cacau Show tornou-se a maior rede de chocolates finos do mundo. Atualmente, conta com 2.050 lojas nos principais shoppings, avenidas e ruas comerciais de todo o Brasil.

Otimista para a Páscoa 2017, a Cacau Show prevê um crescimento de 14% nas vendas durante o período, onde serão produzidas cerca de 8,5 mil toneladas de chocolate. Este montante dará origem aos mais de 40 produtos do portfólio da marca.

“No atual cenário, é preciso ter produtos que atendam diversos tipos de consumidor e de perfil de compra”, avaliou a diretora de marketing de produtos da empresa, Ana Sassano.

O volume comercializado pela Cacau Show em 2016 atingiu 7,9 mil toneladas contra 7,7 mil toneladas em 2015.

Mas a briga neste mercado é grande. Muitas pessoas, diante de um desemprego ou com objetivo de obter uma fonte de renda extra, sabem tirar proveito para faturar com a Páscoa, ao produzir ovos artesanais ou outros formatos de chocolate, o que a imaginação permitir.

Fabricação artesanal, personalizada e com informalidade, visto que não há nenhum CNPJ para recorrer, caso se tenha algum problema de saúde ou o cliente se sinta lesado. Com atendimento bem próximo ao consumidor, este tipo de relação comercial se dá pela confiança e referência de indicações.

No varejo

A Páscoa é uma das cinco melhores datas para o varejo e, para atrair o consumidor, a rede de supermercados GBarbosa está investindo em produtos com formatações para todos os gostos e bolsos.

“A aposta para este ano são os ovos menores, as barras de chocolates e as caixas de bombons”, explica o gerente de gerente de Mercearia do GBarbosa, Marcelo Bueno, acrescentando que a perspectiva de vendas é um aumento de 10% em relação ao mesmo período do ano passado.

Mesmo que o tamanho do ovo diminua ou seja mais econômico comprar uma caixa de bombons, Páscoa no Brasil sempre tem chocolate. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (ABICAB) o brasileiro consome 2,5 quilos, em média, de chocolate por ano, representando, o quinto maior mercado do alimento no mundo.

Entre os brasileiros, 63% costuma presentear com chocolate na Páscoa, segundo pesquisa do IBOPE encomendada pela associação.

Já o coelho, como sempre, continua sendo um bom vendedor e personagem principal do marketing pascoal. No entanto, ao fazer a sua escolha, leve em consideração o seu bolso, claro, priorizando a saúde e a segurança alimentar daqueles que vai presentear.

Ah, por favor, nunca esqueça de JESUS! A ressurreição ainda é o fato mais importante e inexplicável diante do milagre da vida.

Boa Páscoa!

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