O amor está em extinção na era digital?

O digital também tem alterado comportamentos nas relações afetivas

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Um post do autor e ilustrador @ofelipeguga, chamou a minha atenção na última semana. Ele alertava: “o amor está em extinção|extensão”. Sim, sabemos que desde que o mundo é mundo, há relações de arranjos sociais, puro ‘business’ e troca de escambo: uma parte dá prazer, a outra, sustento, sobrenome, cartão american express e está tudo certo, lavrado em cartório.

Contraditório é pensar que em uma era de tanta acessibilidade via aplicativos de paquera, como o Tinder, Happn e outros, está difícil amar. É o que aponta um estudo dos antropólogos e sociólogos da Consumoteca, uma consultoria de pesquisa de mercado. No e-book com o título ‘Relações Beta’, os pesquisadores trazem indícios claros de relações efêmeras, vazias e deterioradas dos dias atuais.

Com um cardápio inteiro a se escolher, nunca se teve tantas oportunidades para experimentações do desejo. A coisa toda parece fazer parte do seriado Black Mirror (que é de ficção científica, disponível no Netflix). Um dos apontamentos do estudo é que o maior desejo de quem participa dos aplicativos e redes sociais, como o instagram, é ser desejado. Neste tipo de relação, a Beta, curtidas, comentários, visitas nos stories ou status, são capazes de regular a autoestima da pessoa.

Com isso, as relações afetivas vêm passando por transformações de comportamento por conta da vida digital. A traição agora começa pela tela. Isso porque é através do virtual que se ganham novos acessos e experiências físicas, reais. 82% dos participantes da pesquisa da Consumoteca disseram que o mundo online coloca-os em contato com pessoas que não conheceriam ocasionalmente.

Mas 64% do público que participou da pesquisa, disse estar ali para buscar um relacionamento estável. Outro dado interessante é que 27% revelou fazer fotos específicas para construção de perfis, tal qual uma vitrine.

Caos e contratinhos

Enquanto de um lado pipoca-se o número de plataformas, cada vez mais sofisticadas, com geolocalização para facilitar o acesso, aumenta-se a percepção de que se relacionar ficou mais difícil. Nos chamados ‘contratinhos’, não há regras. Não tem início ou fim, mas existe uma relação enquanto houver desejo. Com muita oferta no mercado, os contratinhos são as antigas ficadas, porém, agora com pouquíssimo compromisso ou nenhum. “São relações que não se nomeiam”, indicam os pesquisadores. Não é namoro, nem caso, nem nada. Descartável assim. Troca-se sem precisar “terminar”, se é que começou.

Neste universo, sentimentos e tempo são investidos. Selfies sorridentes para impressionar, curvas a valorizar e viagens para ostentar. É o ser humano lutando para se manter na vitrine dos desejáveis.

Enquanto isso, dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) escancaram o aumento da depressão a nível mundial. Até 2020, o órgão divulgou que será a doença mais incapacitante do planeta. O Brasil lidera o ranking de casos na América Latina, com 5,8% da população diagnosticada. Em 2016, eram cerca de 75,3 mil trabalhadores afastados pela Previdência Social acometidos pela enfermidade, e muitos deles, jovens.

O vazio existencial também afeta a taxa de suicídio, que tem avançado no Brasil. Foram registrados 11.433 mortes por suicídio em 2016, um caso a cada 46 minutos, em média. O Ministério da Saúde afirma que em 1 ano, foi um aumento de 2,3% em terras tupiniquins.

Não que doenças e suicídios estejam diretamente relacionados à era das Relações Beta, mas há indícios a serem apurados e cruzados em pesquisas junto a Organizações de Psicologia e Psiquiatria, afinal, o tema é muito novo.

Por Shirley Vidal

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