O “Fora Temer” que não basta mais para nós!

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O fim de tarde da terça-feira, 17 de maio de 2017, se tornou também o fim do governo de Michel Temer. A delação do empresário Joesley Batista prova o envolvimento do presidente em esquema com finalidades criminosas, podendo ser enquadrado na Lei de Organização Criminosa e, além disso, deixa muito flagrante a sua improbidade na administração, deixando cristalina a ocorrência de crime de responsabilidade. É pela importância desses fatos que se faz necessária uma análise mais aprofundada dos caminhos que conduziram o país a essa tragédia.

Há pouco tempo vimos uma imensa maioria dos deputados e senadores declarando apoio ao governo de Temer, bem como às reformas trabalhista, previdenciária, à PEC do congelamento de gastos, à reforma do ensino médio. O argumento utilizado por esses parlamentares era o de que se fazia necessária uma diminuição em investimentos sociais e uma modernização das leis brasileiras que são muito protecionistas.  Apesar de essa linha política ter sido derrotada nas eleições, eles conseguiram implementá-la utilizando-se de um discurso que foi aceito cegamente pela sociedade: o do combate à corrupção.

Foi o discurso do combate à corrupção e da moralidade que fez milhões de brasileiros irem às ruas pedir o impeachment da ex-presidenta, declarar apoio às ilegalidades cometidas pelo juiz Sérgio Moro. Em nome do combate à corrupção várias pessoas diziam que Eduardo Cunha era aliado para tirar Dilma da presidência e comemoravam a cada corrupto que usava o microfone do Congresso Nacional para dizer que votava “sim”. Com uma enorme pitada de manipulação por veículos de comunicação que compõem a grande mídia, milhões de pessoas apoiaram, em nome da moralidade, a chegada ao poder de Temer, André Moura, Romero Jucá e cia. Eles diziam: “a culpa não é minha. Eu votei no Aécio.”

Qual a importância de lembrar de tudo isso para entender o que temos hoje? Entendo que a importância disso é enxergar que os discursos utilizados para colocar Temer e sua turma na presidência tinham um objetivo muito claro que era e ainda é a aprovação de medidas que retirem direitos dos trabalhadores para garantir lucro aos setores sociais que sempre se beneficiaram da corrupção. Ora, é só verificar que a delação do dono da JBS não traz novidade nenhuma. Quem não sabia que o presidente estava envolvido em tudo isso? Tudo isso que está sendo discutido na mídia já havia vazado na época do impeachment. Tivemos acesso a uma conversa entre Sérgio Machado e Romero Jucá em que eles diziam que era necessário um “grande acordo nacional”, “com supremo, com tudo”. Nessa mesma conversa Sérgio Machado dizia: “o Aécio, rapaz… O Aécio não tem condição, a gente sabe disso, porra. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB.” Depois disso Romero Jucá assumiu um ministério do planejamento.

Se um setor corrupto chega ao poder através de um discurso de combate à corrupção, utilizando-se de um impeachment sem crime de responsabilidade, me parece que era muito claro que tínhamos um governo ilegítimo. Mas não basta mais dizer isso. Agora é fundamental dizer também que suas medidas são ilegítimas. A direita brasileira, articulada no parlamento, nos meios de comunicação, em igrejas, movimentos etc, manipulou grande parte da população. Seu maior sucesso foi fazer trabalhadores defenderem interesses de seus patrões, trabalhadores utilizarem o ridículo discurso de que as leis precisavam ser modernizadas. É necessário aprendermos que, ao analisar atos políticos, é fundamental nos fazermos sempre uma pergunta: a quem serve esse ato?

Aprender que na política todas as ações têm um lado é fundamental para que não voltemos a cometer o erro de fortalecer aqueles que nos exploram. Figuras nefastas vêm ganhando força, contraditoriamente, nesse cenário. João Dória e Bolsonaro são figuras emblemáticas disso. Bolsonaro, não apenas apoiou as medidas do governo Temer, como encorajou seres humanos a atacar direitos humanos. João Dória, neoliberal que enriqueceu através de relações com o Estado, enganou o povo de São Paulo com seu discurso apolítico. Pasmem, um candidato a prefeito disse que não era político e muita gente caiu. Esse mesmo apolítico implementa uma série de políticas higienistas que incluem utilizar a Guarda Civil Metropolitana para agredir moradores de rua e apreender seus bens.

Talvez o governo Temer não seja uma tragédia, talvez seja uma grande farsa. Uma farsa que se beneficiou de um falso combate à corrupção para aprovar medidas que faziam os trabalhadores pagar pela crise de um capitalismo em frangalhos. A direita brasileira, com nenhuma vocação democrática, se utilizou de manipulações morais, religiosas, econômicas, dentre outras, para rasgar a constituição e implementar suas políticas. Agora, que a casa caiu eles dirão que a constituição não permite eleições diretas. Eles dirão que os erros de Aécio e Temer, que o discurso fascista de Bolsonaro e Dória, nada têm a ver com as reformas feitas nesse período. Eles mentirão novamente. Foi justamente para aprovar suas medidas que a direita se utilizou desses discursos e de condutas contrárias à Constituição Federal.

A história abre uma nova oportunidade para que a tomemos em nossas mãos. É necessário fazer história, é necessário enfrentar os que sempre mandam. Tomar a história em nossas mãos significa dizer que a letra fria da lei não nos parará e não nos pararia. Os problemas de uma democracia se resolvem com mais democracia, não menos. Os direitos não vão bater em nossas portas pedindo para fazer parte de nossas vidas. Precisamos reaprender que direitos não são frutos de acordos eleitorais. Direitos são frutos de luta, direitos se conquistam, se arrancam. Se a constituição não nos garante impedir a concretização do golpe, que se modifique a constituição. O “fora Temer” não basta mais. Que gritemos “fora Temer”, mas também “fora todas as reformas neoliberais”. Por menos Bolsonaros, Dórias, Aécios: Eleições Diretas já!

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