Psicóloga fala sobre o uso do hand spinner como brinquedo terapêutico

Produzido e comercializado desde 2005, os hand spinners vêm ganhando espaço entre crianças e adolescentes de todo o mundo

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Foto: Aleteia

Composto por um rolamento central e hélices que giram conforme são acionadas pelos dedos, o hand spinner gera polêmica quanto a recomendação como brinquedo terapêutico para os transtornos psicológicos na infância, como a ansiedade e o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

Segundo uma pesquisa feita por psiquiatras e neurologistas da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Albert Einstein College of Medicine, nos Estados Unidos, e do Instituto Glia em Neurociência de Ribeirão Preto (SP), pelo menos 912 mil crianças brasileiras de 5 a 12 anos – o equivalente a 3,3% da população infantil – possuem TDAH, mas nunca trataram. Outros 625 mil menores, nem sabem que têm a doença.

Nos EUA, de acordo com o Centro Nacional de Saúde mental, 38% das meninas de 13 a 17 anos e 26% dos meninos apresentam transtorno de ansiedade e, nas universidades, este diagnóstico é superior ao de depressão.

Não é de espantar que, dentro desse cenário, as pessoas busquem cada vez mais técnicas na tentativa de desacelerar.

O que dizem os especialistas

Se para alguns médicos e estudiosos o hand spinner pode, sim, ser um aliado no tratamento de transtornos como a ansiedade e o TDAH, para outros trata-se de uma distração vazia e momentânea, que não ensinaria as crianças a desenvolverem mecanismos e lidar, de fato, com o problema.

Dra. Iracema Rabello Machado, especialista em psicologia clínica e psicopedagogia. Foto: Acervo Pessoal

Para a especialista em psicologia clínica e psicopedagogia Iracema Rabello Machado a contribuição do spinner é limitada. “Concordo com a opinião do psiquiatra Fernando Asbahr quando diz que o brinquedo tem algo de mágico no sentido de despertar nas pessoas uma esperança de cura. O brinquedo pode funcionar em alguns casos como algo que relaxa, diminui as tensões, mas não funciona em todos os casos. Longe disso, a diversidade do comportamento humano faz dos tratamentos psicológicos, psiquiátricos, algo singular, por isso acho difícil a contribuição do brinquedo no auxilio ao tratamento de TDAH, por exemplo”, afirma a especialista.

Um artigo do New York Times sugere, ainda, que o brinquedo é uma metáfora da nossa época, reproduzindo um mundo freneticamente acelerado, com um turbilhão de informações rápidas, imprecisas e superficiais que enchem as mídias sociais e as próprias relações interpessoais.

Além dos questionamentos acerca da eficácia do brinquedo, o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) tem alertado a população sobre os cuidados no seu manuseio. Segundo o Instituto, o brinquedo deve ser utilizado apenas por crianças maiores de 6 anos devido, entre outros fatores, a possibilidade de ingestão das peças.

O que está por trás dos transtornos na infância?

De acordo com a Dra. Iracema Machado, é comum que as crianças apresentem certo grau de ansiedade, uma vez que elas ainda estão se adaptando ao mundo. Entretanto, assim como em qualquer idade, a ansiedade é considerada patológica quando começa a interferir na vida da criança.

“Ela se torna mais preocupante quando começa a afetar o rendimento escolar, quando acarreta problemas na alimentação, alterações no sono e no comportamento, como irritabilidade e agressividade, podendo até causar doenças psicossomáticas”, explica.

Assim como a ansiedade, o TDAH é uma das patologias psiquiátricas mais comuns da faixa etária. Distração, hiperatividade, impulsividade, esquecimentos, agitação mental, desorganização, baixo rendimento, dentre outros, são sintomas que podem estar presentes, apesar de não serem conclusivos, por si só, para o diagnóstico.

“O TDAH é comumente confundido com falta de limites, birras e com crianças “cheias de energia”. Os sintomas vão se diferenciando quando surgem dificuldades escolares, como permanecer quieto durante as explicações, falta de paciência para entender os comandos da professora, rapidez na resolução das tarefas, não se preocupando em fazer correto. Muitas vezes as famílias não percebem o transtorno, já que se trata de crianças inteligentes, com desenvolvimento normal”, diz a especialista.

Acredita-se que os transtornos também estão relacionados a causas sociais, como práticas e hábitos da sociedade contemporânea, já que se observa um aumento significativo de casos na atualidade.

Segunda a Dra. Iracema, algumas linhas de pesquisa defendem o estilo de vida como um fator que interfere no grau de intensidade que os transtornos se desenvolvem. Dessa forma, o imediatismo, a vida agitada e o uso exagerado das tecnologias poderiam aumentar o grau dos sintomas de TDAH.

É possível, ainda, que os próprios familiares acabem contribuindo involuntariamente, como esclarece a psicóloga: “Cada dia mais se observa uma atmosfera de exigências, cobranças, competições que cercam as crianças muito cedo. A falta de tempo, o sentimento de culpa que os pais carregam são compensados com coisas materiais e as relações acabam mais voltadas para o ter, em detrimento do ser. Isso gera angústia, ansiedade. Somado às cobranças, é um comportamento favorável ao desenvolvimento das patologias psíquicas”.

Tratamento

Muito além da indicação de brinquedos terapêuticos, o tratamento dos transtornos psicológicos na infância deve ser multiprofissional. Neuropediatra, neuropsiquiatra, psicólogo, pedagogo, psicopedagogo e fonoaudiólogo, são os profissionais indicados para diagnosticá-los.

De acordo com a Dra. Iracema, o acompanhamento e orientação da família em sessões de psicoterapia, assim como a participação em grupos de apoio, é fundamental para o tratamento, uma vez que ele também exige mudanças no comportamento familiar.

Por Layanna Machado, da equipe VIP

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