A psiquiatria e seus estigmas

Enquanto o número de pessoas portadoras de transtornos mentais aumenta no Brasil e no mundo, a discriminação contra psiquiatras e pacientes ainda é uma realidade

0
Foto: Boa Vida Online

A garganta que infecciona, o estômago que traz mal-estar, as defesas do corpo que se desregulam. Para todos esses problemas, poucos têm dúvida em procurar a ajuda de um clínico geral ou de um médico especialista. Quando se trata de problemas emocionais, entretanto, o psiquiatra ainda hoje é buscado com resistência e insegurança, o que se deve, entre outros fatores, à estigmatização dos transtornos mentais.

Segundo o “Atlas de Saúde Mental 2014”, da Organização Mundial de Saúde (OMS), uma em cada 10 pessoas no mundo sofre de algum distúrbio, o que representa, em média, 700 milhões de pessoas.

Dados oficiais da Secretaria de Previdência do Ministério do Trabalho, disponibilizados no 1º Boletim Quadrimestral sobre Benefícios por Incapacidade de 2017, apontam, ainda, os transtornos mentais e comportamentais como a terceira causa mais frequente de incapacidade para o trabalho, no período entre 2012 a 2016.

Depressão, ansiedade, transtorno bipolar, esquizofrenia e transtornos por abuso de substâncias são alguns exemplos de quadros clínicos capazes de afetar as atividades cotidianas do indivíduo, produzindo sérios prejuízos emocionais, sociais e físicos.

Os males do preconceito

Denominada psicofobia, a discriminação contra portadores de transtornos mentais resulta, ainda hoje, na criação de estereótipos, preconceitos e comportamentos discriminatórios, que atingem desde pacientes, familiares, até os próprios profissionais que atuam na área. Ao diminuir ou retardar a busca por ajuda médica especializada, a psicofobia é capaz de cronificar o quadro do paciente.

Nesse ponto, a Dra. Ana Rita Menezes da Silva Pineyro, alerta que a procura rápida do especialista, ao contrário, contribui de forma considerável para a melhora do prognóstico. “Isso é muito importante porque estamos falando de doenças que comprometem de forma grave a capacidade de vida das pessoas, não só a capacidade laboral”, ressalta a especialista.

d1007eaa-5807-4a72-bf9d-d8e5c45d5ea6
Dra. Ana Rita Menezes da Silva Pineyro, médica psiquiátrica. Foto: Acervo pessoal

Segundo a Dra. Helena Pinho de Sá, psiquiatra e professora de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Sergipe, para compreender os transtornos mentais, é preciso que as pessoas ultrapassem o engano histórico de ver a mente e o corpo separadamente. “Acredito que ainda hoje é difícil para as pessoas entenderem que a mente é ligada ao corpo físico e, por isso, é possível sofrer transtornos que necessitam de tratamento de saúde”, afirma.

img-4021
Helena Pinho de Sá, psiquiatra e professora de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Sergipe. Foto: Acervo pessoal

Além das raízes históricas do preconceito, como a marginalização e a segregação da loucura em séculos passados, a sociedade contemporânea também possui uma poderosa influência: por vivermos em uma cultura marcada pela performance e pela necessidade de ser feliz constantemente, a busca por ajuda é muitas vezes encarada como sinônimo de fraqueza emocional.

“Longe de ser um insucesso, a ajuda psiquiátrica de qualidade pode auxiliar as pessoas a se sedimentarem e a consolidarem bases mais fortalecidas para lidarem com as dificuldades inerentes à vida”, relata o Dr. Amilton dos Santos Júnior, psiquiatra e professor do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

20170707_185137
Dr. Amilton dos Santos Júnior, psiquiatra e professor do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Foto: Acervo pessoal

A disseminação de informação qualificada também é ferramenta fundamental no enfrentamento à psicofobia, como sugere a Dra. Karina Diniz Oliveira, psiquiatra e professora doutora no Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Unicamp: “Campanhas de orientação, prevenção e principalmente a educação da população são muito úteis para desconstruir o estigma que envolve o transtorno mental”, ressalta.

Iniciativas dessa natureza são realizadas pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a exemplo da campanha permanente ‘Psicofobia é crime’, lançada em 2011, que conquistou a adesão de personalidades que sofrem de algum transtorno mental. O Dia Nacional de Enfrentamento à Psicofobia, em 12 de Abril, representa outro marco importante no que se refere à saúde mental no Brasil.

psicofobia-materia
Crédito: Layanna Machado, da equipe VIP

A busca por ajuda especializada

O medo de um diagnóstico psiquiátrico também pode se tornar um impedimento para que as pessoas busquem o auxílio profissional adequado. De acordo com a Dra. Helena Pinho de Sá, o diagnóstico em psiquiatria ainda ocorre por meio da entrevista com o médico, mas exames vêm sendo desenvolvidos para complementar a análise clínica, buscando a execução de um tratamento mais precoce e que minimize o risco de cronicidade da doença.

A busca de ajuda especializada deve ocorrer, portanto, quando há desconforto psíquico que possa prejudicar o funcionamento prévio do indivíduo, como explica a Dra. Karina Oliveira: “Esse desconforto pode, inclusive, ser manifestado por sintomas físicos, como sensação de palpitação, dores de estômago, dificuldades de sono, sem relação com nenhuma doença clínica. Além disso, problemas de relacionamento com outras pessoas, irritação, falta de tolerância, esquecimentos, tristeza, medo sem explicação podem ser sintomas de doenças psiquiátricas que, se abordadas precocemente, podem evitar muito sofrimento”.

img_1198
Dra. Karina Diniz Oliveira, psiquiatra e professora doutora no Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Unicamp. Foto: Acervo pessoal

Além disso, a consulta com o psiquiatra também possui objetivos preventivos, em que o profissional irá analisar o histórico de vida do paciente, além de outros aspectos importantes, como a presença de antecedentes de transtornos psiquiátricos na família.

A importância da atuação do médico psiquiatra

Segundo dados do estudo estatístico “Demografia Médica no Brasil 2015“, realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP, existem no país 9.010 especialistas em psiquiatria, o que significa 4,48 especialistas por 100 mil habitantes.

O médico psiquiatra é o profissional adequado para realizar um diagnóstico preciso acerca das variadas formas e expressões do sofrimento mental. Ele é habilitado a conhecer e compreender o funcionamento físico do corpo humano, desde a atuação do sistema nervoso e sua imensa rede de componentes, às complexidades do indivíduo em termos de comportamento, afetividade e emoções.

“O psiquiatra precisa fazer curso de medicina, que dura seis anos. Em seguida, o ideal é fazer a Residência em Psiquiatria, que dura no mínimo três anos. Há profissionais que comprovam experiência na área e a eles é permitido prestar a prova de Título de Especialista em Psiquiatria, que é realizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria. A aprovação na prova de Título de Especialista ou a Residência em Psiquiatria tornam o profissional apto a ser psiquiatra”, explica a especialista Karina Oliveira.

Diferente do psicólogo ou do psicanalista (a não ser que tenha uma formação médica), o psiquiatra está habilitado a receitar medicamentos que, como todas as drogas alopáticas, também possuem efeitos colaterais e, por isso, necessitam de um acompanhamento médico adequado.

Caso observe a necessidade, o psiquiatra poderá, ainda, fazer encaminhamentos para outros profissionais, como neurologistas, psicólogos e especialidades que lidam com a mente humana. Também ocorre de ser detectada a importância de outras intervenções, a exemplo de nutricionistas e fonoaudiólogos.

Segundo o Dr. Amilton Júnior, o profissional também é capaz de fornecer orientações importantes para familiares e amigos: “A figura do psiquiatra é importante não apenas para acolher, diagnosticar e tratar o indivíduo, mas também para ajudar as pessoas que compõem a rede de apoio do paciente a terem orientações no sentido de poderem oferecer um suporte de qualidade a quem está em situações de crise”, destaca.

O médico lembra, ainda, que grande contingente de portadores de transtornos mentais, especialmente os casos mais graves, não tem acesso a tratamentos adequados, chamando atenção para a ausência de políticas e serviços públicos de qualidade no país, e para a carência de espaços que ofereçam cuidados modernos, incluindo a presença de equipes multiprofissionais.

Por Layanna Machado, da equipe VIP

Deixe uma resposta